Coluna - "Dokei Moi"

 

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?

 

Por Fábio Abreu dos Passos

 

O “Soberano” das terras tupiniquins expressou a seguinte opinião: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo”. Algumas horas depois desse pronunciamento, o “Soberano” tenta remediar o seu discurso, sem se ater à realidade, ao dizer que “O brasileiro come mal. Alguns passam fome”.

Segundo dados do IBGE, estima-se que 52 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, o que equivale a um quarto da população do Brasil, um contingente populacional que não pode ser denominado como “Alguns”. Essas duas afirmativas, em seu conjunto, demonstram um completo desconhecimento da realidade do país que ele está gerindo.

Além dessa ignorância atroz acerca de um tema por deveras delicado, o “Soberano tupiniquim” parece ser possuidor de um humor macabro ou de uma (in)consciência que o “deixa em maus lençóis”, uma vez que no mesmo dia em que emitiu essa “doxa perolada”, que demonstra como o mundo (dos que passam fome) aparece para ele, foi capaz de dizer  que se puder, ele dará filé mignon para o seu filho, se referindo à nomeação de um de seus descendentes para a embaixada Norte Americana. Ou seja, enquanto 55 milhões de famintos são referidos pelo pronome indefinido “Alguns”, ele fará de tudo para saciar a “fome” do seu herdeiro com uma das carnes mais suculentas e caras que existe... uma infeliz coincidência de analogias ou um total descaso com uma população sedenta por melhores condições de vida?

Antes dessas “pérolas opinativas”, já em maio deste ano, em uma entrevista para um programa de televisão, o “Soberano” afirmou que o “racismo é coisa rara no Brasil”, assertiva prontamente ratificada pela apresentadora do programa: uma mulher branca pertencente à elite brasileira que, “certamente”, tem pleno conhecimento do assunto em pauta e fala com “propriedade” que o Brasil é raramente racista. Mais uma clara demonstração de como o mundo (brasileiro) aparece aos olhos do “Soberano” e de seus fiéis “Súditos”.

Então, caríssimos, temos diante de nossos olhos duas opções para escolhermos: a primeira apontaria que o “Messias” está equivocado em seus diagnósticos acerca da fome e do racismo em nosso país, algo que soaria como uma blasfémia; a segunda opção nos demonstraria que estamos diante de uma mudança de patamar no modo como a sociedade do nosso país se constitui, mudança esta ocorrida em APENAS 200 dias de governo do “Messias”: não temos fome e não somos racistas!!! O “Messias” operou um milagre em terras tupiniquins: transformou água em vinho... encheu as panelas de todos os brasileiros de arroz e feijão, além de ter incutido na mente de seus patriotas o espírito de igualdade e respeito à diversidade.

Nos 200 dias de messianismo, um dos jargões mais utilizados é: extirpar a ideologia de nosso país, seja das escolas e universidades (escola sem partido), da cultura... Fora ideologia!!! Esse jargão se refere a limpar de terras verde e amarela a cor e a ideologia horrenda do comunismo que tanto prejudica a ordem e o progresso de nossa nação, sendo um nevoeiro denso que encobre a certeza de que a nossa pátria é amada e gentil com TODOS os seus filhos e filhas.

Contudo, o que de fato está ocorrendo é a tentativa de eliminar do espaço público os pontos de vista construídos a partir de uma compreensão de mundo com matriz de esquerda, vulgarmente chamada de “ideologia comunista”. A tentativa de eliminação de opiniões de esquerda tem tão somente como propósito a edificação daquilo que Hannah Arendt (1906-1975) compreende pelo termo “Ideologia”: a lógica de uma ideia, que funciona como uma ferramenta que procura fomentar uma visão unitária e homogênea de mundo. Esta visão de mundo deve ser entendida à maneira de um silogismo que, pela aplicação de uma ideia, revela um processo coeso, o qual não necessita da realidade factual para confirmá-lo, tão pouco para negá-lo: não há pessoas esqueléticas nas ruas, logo, o brasileiro não passa fome; desafia-se alguém a dizer que o Brasil é racista, pois um país cujo braço direito do “Soberano” é o deputado federal “Hélio Bolsonaro” ou “Hélio Negão” é, “sem dúvida”, uma nação com um forte apreço à pluralidade de etnias. Exemplos “lógicos” que corroboram a compreensão arendtiana acerca da ideologia, ou seja, uma “doutrina mais ou menos destituída de validade objetiva, porém mantida pelos interesses claros ou ocultos daqueles que a utiliza; que pode explicar toda e qualquer ocorrência a partir de uma única premissa” (ARENDT, Origens do totalitarismo, p.521). A ideologia, assim, faz com que as pessoas sejam afastadas da “realidade real” e guiem os seus pensamentos através das sendas de ideias destituídas de validades, ou seja, ideias que não encontram o seu correlato nos fatos, ou alguém, em sã consciência, é capaz de concordar que o brasileiro não passa fome e de que não há racismo em nossa sociedade?

Certamente não vivemos em uma sociedade totalitária, tal como a Alemanha nazista, regime político que assombrou o mundo entre os anos de 1933 e 1945 e que funcionou como fio condutor das reflexões filosóficas e políticas de Hannah Arendt, tais como aquelas referentes à ideologia, mas vivemos em uma sociedade prototalitária, em que o germe de um regime de exceção está em latência em nosso solo, à espera de um momento propício para ganhar a superfície e se espalhar como um fungo.

A ideologia fundada pelo messianismo bolsonarista corresponde ao ideal de sociedade construída pela pequena parcela da população que atende pelo nome de “elite”, que em termos percentuais é ínfima, mas em termos financeiros é descomunal. É esta “elite” que insiste para que os seus propósitos sejam sustentados como um dogma inquebrantável: que o “povo brasileiro” continue a lhe servir, como outrora na “Casa Grande”, de maneira dócil e útil. Para que essa subserviência seja mantida é necessária a construção de “Ideologias” que apontem para uma “pseudorrealidade” abundante e igualitária, enquanto a “real realidade” se constrói através da imagem na qual a maior parcela da população se alimenta das migalhas que caem das mesas de seus donos e bebe da água que lhe é servida a conta gotas... uma “fartura” que não tampa o buraco do dente e nem sacia a sede!

Mas o que essa “elite”, pastoreada pelo “Messias”, não compreende é que a “massa de miseráveis” tem fome... e não é somente fome do “pão nosso de cada dia”, mas é de obras de arte, de livros, de teatro, de cinema, de educação emancipatória, de conhecimento, de voz nos espaços públicos... Talvez essa “massa de miseráveis” ainda não tenha se dado conta de que o “ronco” que ela escuta não é proveniente somente de seu estômago vazio e ávido por alimento, mas é, sobretudo, de seu espírito sedento de “direito a ter direitos”, como asseverou Hannah Arendt.

E você? Tem fome de quê? Tem sede de quê?