Coluna - "Dokei Moi"

 

REESCREVENDO LIVROS, SILENCIANDO AS LUTAS E APAGANDO A HISTÓRIA: UM PROJETO DE GOVERNO

 

O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) de responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) visa à organização de editais e aquisição dos livros didáticos de todas as escolas públicas do Brasil. Em seu último edital, de forma antidemocrática e desrespeitosa com todas as lutas desenvolvidas no Brasil nas últimas décadas, descumprindo princípios legais e democráticos que asseguravam a escolha de um material didático livre de discriminações de cunho econômico, étnico racial, político, religioso, de gênero e orientação sexual, eliminou os itens que tratavam sobre esses temas e reduziu, em conformidade com a ideologia do atual governo, o livro a uma ferramenta desvinculada da formação social, história e política de nossos alunos.

Já no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2019, um Conselho criado pelo governo orientou que questões que apresentassem o termo DITADURA MILITAR fossem deixadas de lado do certame ou fossem reescritas utilizando regime militar, em uma clara movimentação em prol de apagar da história os horrores da ditatura civil-militar que assombrou o Brasil por mais de vinte anos. Tal fato só chegou a conhecimento público em 2021 devido a um requerimento de informações organizado por alguns deputados federais. Fato que nos mostra que o atual governo é bufão e sórdido publicamente, mas fora nos palcos e das vistas da população e da mídia independente age sorrateiramente e é ainda mais assustador do que podemos imaginar. Por certo, não poderíamos esperar menos de um governo que foi eleito com base em notícias falsas, discurso de ódio e manipulação dos ânimos das massas, isto é, pessoas frustradas com sua estagnação econômico-social ou revoltados com o compartilhamento do mundo com pessoas que antes viviam à margem.

Hoje, no Brasil e no mundo, não basta o perigo das fontes não serem muitas vezes confiáveis, somos expostos diariamente a mentiras em massa, algumas mais perigosas que outras, mas o mais choca é que o perigo está além da própria mentira/negação de um fato, estamos sendo confundidos e essa confusão nos deixa susceptíveis aos mais terríveis golpes e manipulações. Para protegermos o mundo, precisamos preservar os espaços pré-políticos em que habitamos e onde a verdade conta como uma das matérias mais importantes para o seu funcionamento. As universidades são exemplos desses espaços, bem como a imprensa e as cortes de justiça e, como temos visto, estas instituições têm sido alvos de inúmeros ataques. Somente preservando esses espaços, poderemos ainda ter como agir em concerto e expressar nossas opiniões num espaço público. A verdade factual, como nos disse Hannah Arendt, é aquilo que não devemos modificar porque é a partir dela que colocamos os pés no chão e podemos então fazer e imaginar coisas além e, mais do que nunca se faz necessário, preservar a possibilidade de que outros venham a conhecer e transformar o mundo. Vale ressalvar que existe a possibilidade de exterminar fatos/verdades, quando reescrevemos livros, alteramos nomenclaturas e buscamos apagar da memória coletiva os eventos passados tem-se uma transformação do mundo e uma manipulação da realidade –  são esses os caminhos que seguem as instituições ligadas à educação no Brasil ao “rever” golpes e dificultar a conscientização política nas escolas.

Se os seguidores de vocês-sabem-quem são tratados como gado, o capitão é bem mais assustador do que suas emas e seu rebanho. Em todo caso, ainda na esteira das metáforas animalescas, lembremos de que “A cadela do fascismo está sempre no cio”, como dizia Bertoldt Brecht. Atentemos para nossa memória e não deixemos que nos roubem, além do direito à educação, o direito à liberdade e à luta política.

 

João Farias